Lanternas tinha tudo para ser uma das produções mais interessantes do novo DCU. A ideia de acompanhar Hal Jordan e John Stewart em uma investigação policial aparentemente mais contida, com mistério, personagens complexos e uma abordagem muito mais próxima de um thriller do que de uma aventura tradicional de super-heróis, era realmente intrigante.
E, no começo, funciona.
A série acerta justamente por não tentar transformar cada episódio em uma batalha gigantesca. Não precisava de planetas explodindo, milhares de alienígenas ou raios verdes atravessando a tela a cada cinco minutos. O caminho mais pé no chão era, inclusive, uma das melhores características de Lanternas.
O problema é que a produção parece não saber onde está o limite entre ser uma história de super-heróis mais contida e simplesmente esconder que está contando uma história de super-heróis.
Até aproximadamente o quarto episódio, essa escolha funciona muito bem. A investigação tem personalidade, Hal Jordan e John Stewart conseguem criar uma dinâmica interessante e o mistério prende a atenção. Existe uma sensação de que estamos acompanhando algo diferente dentro do universo da DC.
Depois disso, a série começa a perder justamente aquilo que a fazia especial.
O problema não é ser pé no chão
Eu não esperava que Lanternas fosse uma sequência de batalhas cósmicas. Aliás, acredito que seria um erro transformar a série nisso.
A proposta de trazer os personagens para uma investigação terrestre, com uma atmosfera de suspense e referências a produções policiais, é boa. O próprio conceito de colocar dois policiais intergalácticos investigando um mistério no interior dos Estados Unidos é uma ótima maneira de apresentar esse universo para quem talvez não conheça profundamente os quadrinhos.
O problema é que existe uma diferença enorme entre não exagerar nos poderes e praticamente evitar utilizar os poderes.
Lanterna Verde é um personagem cujo principal diferencial está justamente na capacidade de transformar sua força de vontade em praticamente qualquer coisa através do anel. É um conceito visual e narrativo extremamente rico.
E Lanternas passa boa parte da temporada fazendo você se perguntar: por que esse personagem não está usando o próprio anel de maneira mais interessante?
A sensação que fica é quase a de que a série tem vergonha de ser uma história de super-heróis.
Não precisava colocar Hal Jordan criando um exército de construtos gigantes em toda luta. Mas precisava mostrar, de alguma maneira, por que aquele homem é um dos maiores Lanternas Verdes que já existiram.

Hal Jordan é um problema maior do que deveria
Kyle Chandler é excelente como Hal Jordan. O ator entrega um personagem cansado, experiente, arrogante na medida certa e carregado de problemas. Existe uma humanidade muito interessante na interpretação, e Chandler consegue fazer com que você entenda aquele Hal mesmo quando o roteiro não ajuda.
Mas existe uma contradição muito grande na forma como o personagem foi escrito.
Estamos falando de Hal Jordan, um dos Lanternas Verdes mais conhecidos e poderosos da DC, colocado em uma história na qual seu próprio principal instrumento parece estar constantemente subutilizado.
Isso enfraquece o personagem.
A série quer que enxerguemos Hal como uma lenda, mas raramente entrega momentos que realmente façam o espectador sentir que está diante de uma lenda.
E isso fica ainda mais estranho porque o universo da DC já estabeleceu que existem Lanternas Verdes e que esses personagens fazem parte de uma realidade muito maior.
A sensação deveria ser de descoberta.
Em vez disso, muitas vezes parece que estamos assistindo a uma produção tentando esconder o próprio universo que deveria apresentar.
E então chegamos ao problema do DCU
Aqui está uma das coisas que mais me incomodaram em Lanternas.
A série existe dentro de um universo compartilhado. Portanto, ela não pode simplesmente se comportar como se nada do que vimos em outras produções da DC tivesse acontecido.
O Lanterna apresentado em Superman deveria ajudar a construir essa sensação de universo conectado. Só que, quando ele aparece em Lanternas, a presença parece deslocada.
Não existe uma integração realmente natural.
É como se os dois produtos pertencessem a universos diferentes que foram obrigados a dividir o mesmo espaço.
E isso é especialmente estranho porque o novo DCU está justamente começando a construir suas conexões. Lanternas deveria ser uma das peças importantes desse quebra-cabeça.
Em vez disso, ela parece isolada.
E quanto mais a temporada avança, mais difícil fica entender qual é exatamente o lugar dessa história dentro daquele universo.
O elenco merecia muito mais
Se existe alguma coisa que eu não consigo reclamar em Lanternas, é do elenco.
Kyle Chandler está muito bem como Hal Jordan. Aaron Pierre também entrega um John Stewart muito interessante, com uma presença que consegue sustentar a transformação do personagem ao longo da temporada.
Kelly Macdonald funciona muito bem como Kerry, e nomes como Ulrich Thomsen, Garret Dillahunt, Poorna Jagannathan, Laura Linney e Nathan Fillion ajudam a criar uma produção com um elenco muito acima da média.
Nathan Fillion, inclusive, tem pouco espaço para trabalhar como Guy Gardner, o que acaba sendo mais uma oportunidade desperdiçada.
O problema nunca foi falta de talento diante das câmeras.
O elenco faz o que pode com o material que recebe.
E talvez seja justamente isso que mais incomode: esses atores não mereciam um roteiro tão preguiçoso em alguns momentos.
Existe potencial em praticamente todos esses personagens, mas a história frequentemente escolhe o caminho mais fácil.
Não precisava de raios verdes para funcionar
Eu quero deixar isso muito claro porque essa crítica poderia facilmente ser interpretada de maneira errada.
Eu não queria que Lanternas virasse um festival de CGI.
Não precisava.
A série poderia continuar sendo um thriller policial. Poderia continuar tendo diálogos longos. Poderia continuar trabalhando seus personagens de maneira mais adulta. Poderia continuar sendo uma história sobre medo, culpa, responsabilidade e escolhas.
Mas tudo isso precisava existir dentro de uma história de Lanterna Verde.
Era possível fazer os dois.
O problema é que a série parece escolher constantemente o drama em detrimento da fantasia.
E quando finalmente decide abraçar elementos mais cósmicos, eles chegam tarde demais e de maneira pouco satisfatória para quem passou a temporada esperando alguma recompensa.
É como se a produção tivesse medo de entregar ao público aquilo que ele veio assistir.
O final piora a sensação de desperdício
A primeira temporada termina tentando fechar a história de Hal Jordan e abrir o caminho para John Stewart.
A ideia, no papel, é interessante.
A morte de Hal dá peso à jornada de John e cria uma passagem de bastão bastante importante para o futuro do DCU. O problema é que a execução deixa uma sensação estranha, principalmente para quem passou a temporada inteira esperando que a série encontrasse uma identidade mais próxima dos quadrinhos.
O mistério da morte de Hal finalmente é explicado, assim como a relação envolvendo Kerry e Noah, e John chega a uma conclusão importante sobre o que significa ser um Lanterna. O final também aposta muito mais no emocional do que em uma grande batalha.
E, novamente, não existe problema algum em terminar uma temporada sem uma batalha gigantesca.
O problema é que a série passou oito episódios construindo expectativas que não parecem ter uma recompensa proporcional.
Lanternas Vale a pena?
Infelizmente, para mim, não.
Lanternas começa com uma das propostas mais interessantes do novo DCU, apresenta um elenco excelente e consegue criar uma atmosfera própria. Durante os primeiros episódios, eu realmente comprei a ideia de uma investigação mais pé no chão dentro do universo dos Lanternas Verdes.
Mas quanto mais a temporada avança, mais a série parece se afastar daquilo que deveria representar.
Não precisava de mais explosões. Não precisava de mais CGI. Não precisava de batalhas gigantescas.
Precisava apenas de mais coerência com o próprio universo, melhor utilização dos poderes, uma construção de mundo mais clara e um roteiro que confiasse um pouco mais naquilo que torna o Lanterna Verde tão interessante.
O pior é que Lanternas tinha tudo para provar que era possível fazer uma excelente série de super-heróis sem transformar tudo em uma guerra intergaláctica.
No lugar disso, termina parecendo uma série que tem vergonha de ser uma série de super-heróis.
E para um personagem que finalmente ganhou uma nova chance depois de tantos anos, isso é frustrante demais.
Nota: 4/10
Quer saber o que a gente achou episódio por episódio?
Se na crítica já deu para perceber que Lanternas não conquistou o Phelipe, no NãoSeiNada Podcast a gente foi ainda mais fundo. Conversamos sobre cada episódio da temporada, discutindo as escolhas da série, Hal Jordan, John Stewart, o mistério, os poderes, o lugar de Lanternas no novo DCU e, claro, aquele final que dividiu opiniões.
🎙️ Ouça o NãoSeiNada Podcast e acompanhe nossa discussão episódio por episódio de Lanternas.













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