Eu queria gostar de Jurassic World: Recomeço. De verdade. Afinal, estamos falando de uma das franquias mais importantes do cinema, uma série que começou com Jurassic Park e conseguiu transformar dinossauros em um fenômeno cultural que atravessa gerações.
O problema é que, depois de assistir ao filme, a sensação que fica é justamente a de que esse “recomeço” não entendeu muito bem o que precisava ser renovado.
Jurassic World: Recomeço parece novo apenas na embalagem. Por dentro, encontramos praticamente a mesma estrutura de sempre: uma equipe especializada, uma missão impossível, uma ilha cheia de dinossauros, uma grande corporação interessada em ganhar dinheiro, pessoas correndo de criaturas gigantes e personagens que parecem ter sido construídos a partir de estereótipos que o cinema já deveria ter deixado para trás.
E o pior é que, em alguns momentos, o filme parece acreditar que está fazendo algo novo.
Jurassic World: Recomeço repete a fórmula até cansar
A história acompanha Zora Bennett, interpretada por Scarlett Johansson, uma especialista em operações perigosas que recebe a missão de entrar em uma região isolada para coletar material genético de três grandes espécies de dinossauros.
A justificativa é até interessante: o DNA dessas criaturas poderia ajudar no desenvolvimento de medicamentos capazes de tratar doenças graves.
O problema não está na premissa. O problema é a forma como o roteiro chega a ela.
Tudo parece montado para colocar os personagens em uma sequência de situações perigosas que já vimos inúmeras vezes. A equipe chega, alguma coisa dá errado, aparece um dinossauro, alguém corre, alguém quase morre, outro dinossauro aparece e seguimos para a próxima cena.
Críticas especializadas também apontaram essa dependência de uma estrutura familiar, com o roteiro funcionando muitas vezes mais como uma ligação entre grandes sequências de ação do que como uma história realmente desenvolvida.
E isso é especialmente frustrante porque Jurassic Park nunca precisou depender apenas dos dinossauros para funcionar.
O filme tem uma visão muito ultrapassada de quem “entende” daquele lugar
Aqui está um dos aspectos que mais me incomodaram.
O filme coloca uma equipe formada por personagens estrangeiros, especialmente americanos, em uma região isolada e perigosa, e cria uma dinâmica em que são eles que chegam como os grandes especialistas capazes de entender, explorar e resolver os problemas daquele ambiente.
Isso poderia ser utilizado para discutir exploração, colonialismo, interesses corporativos ou mesmo os limites éticos de entrar em um território desconhecido atrás de recursos.
Mas o roteiro prefere seguir pelo caminho mais fácil.
Os estrangeiros chegam, sabem o que fazer, têm os equipamentos, têm o conhecimento técnico e assumem o controle da situação.
E isso deixa uma sensação bastante desconfortável, principalmente porque o filme não parece interessado em questionar essa posição de poder. Em vez de transformar esse conflito em parte relevante da narrativa, ele simplesmente aceita essa lógica como algo natural.
Não estou dizendo que o filme deveria necessariamente transformar Jurassic World em uma aula de geopolítica. Mas, quando você constrói uma história em que um grupo externo entra em uma região isolada para retirar material biológico de criaturas que vivem ali, existe espaço para questionar quem tem o direito de entrar, quem decide o que será retirado e para quem aquele conhecimento serve.
O roteiro passa longe disso.
Os estereótipos também incomodam
Outro problema é a maneira como alguns personagens são construídos.
O filme parece recorrer constantemente a arquétipos que já estão extremamente desgastados: o executivo ganancioso, o especialista que sabe tudo, o sujeito durão, a família colocada em perigo, o personagem utilizado quase exclusivamente como alívio cômico e o integrante da equipe que claramente está ali para virar comida de dinossauro.
O personagens são pouco desenvolvidos e a história é muito previsível, mesmo com um elenco consegue entregar performances melhores do que o material oferece.
É como se o roteiro tivesse uma lista de coisas que precisam aparecer em um filme de Jurassic Park e simplesmente fosse marcando cada item.
Tem criança? Tem.
Tem família em perigo? Tem.
Tem empresário querendo ganhar dinheiro? Claro.
Tem especialista? Temos.
Tem dinossauro novo? Óbvio.
Tem personagem tomando uma decisão completamente questionável diante de um animal de várias toneladas? Também.
Só que repetir os ingredientes não significa reproduzir a magia.

Scarlett Johansson merece um filme melhor
Eu também preciso falar de Scarlett Johansson.
Zora Bennett é apresentada como uma profissional extremamente experiente, uma personagem que deveria carregar o peso da liderança da equipe. Mas o roteiro não consegue construir essa personagem com a força necessária.
Ela é descrita como alguém extremamente preparada, mas muitas vezes parece apenas mais uma protagonista de filme de ação colocada em uma situação perigosa.
E isso é uma pena porque Johansson tem presença suficiente para carregar uma personagem muito mais interessante.
Mahershala Ali também consegue trazer carisma para Duncan Kincaid, enquanto Jonathan Bailey funciona como Henry Loomis, o paleontólogo que representa o lado científico da missão. O próprio elenco acaba mostrando que havia material para construir personagens mais interessantes.
Mas o roteiro está tão preocupado em chegar à próxima perseguição que quase não deixa essas pessoas respirarem.
E os dinossauros?
Aqui existe uma pequena contradição.
Eu não odiei os dinossauros.
Na verdade, algumas das criaturas são visualmente muito interessantes e conseguem criar momentos de tensão.
O problema é que o filme parece acreditar que basta apresentar um dinossauro diferente e maior para recuperar a sensação de descoberta dos primeiros filmes.
Não basta.
O T-Rex de Jurassic Park funcionava porque havia uma sensação de maravilhamento. A criatura parecia algo impossível que havia acabado de entrar no nosso mundo.
Em Recomeço, muitas vezes o dinossauro parece simplesmente mais um obstáculo no caminho.
E quando chega a hora de apresentar o grande monstro da vez, a reação acaba sendo mais próxima de “olha o que inventaram agora” do que de “meu Deus, o que é isso?”.
A ação funciona, mas não salva o filme
Preciso reconhecer que Gareth Edwards sabe construir algumas sequências visualmente interessantes.
O diretor tem uma boa noção de escala e consegue transmitir o tamanho das criaturas em determinados momentos. As perseguições funcionam e existem cenas que entregam exatamente aquilo que alguém pode procurar em um filme de Jurassic World: dinossauros grandes causando problemas para seres humanos pequenos.
O problema é que essas cenas estão conectadas por um roteiro que não me deu motivos suficientes para me importar com o que estava acontecendo.
E esse é um problema enorme.
Não adianta eu ficar impressionado com um dinossauro se cinco minutos depois eu não me importo com o personagem que está tentando fugir dele.
Jurassic World precisava de novas ideias
Talvez essa seja a maior frustração de Jurassic World: Recomeço.
O filme tinha uma oportunidade perfeita para realmente recomeçar a franquia.
Poderia explorar as consequências de décadas de manipulação genética. Poderia discutir a exploração comercial de espécies extintas. Poderia abordar a relação entre diferentes sociedades e ambientes naturais. Poderia questionar quem controla o conhecimento científico e quem se beneficia dele.
Mas prefere voltar para a fórmula mais confortável.
E isso fica ainda mais evidente quando lembramos que até a crítica especializada identificou justamente essa dificuldade do filme em escapar da repetição. O Omelete, por exemplo, apontou que a familiaridade da fórmula impede os méritos do longa de serem suficientes para revitalizar a franquia.
Jurassic World: Recomeço vale a pena?
Jurassic World: Recomeço tem dinossauros, ação e alguns momentos visualmente interessantes, mas não consegue entregar a renovação que o título promete. O roteiro recicla estruturas conhecidas, trabalha com personagens pouco desenvolvidos e utiliza estereótipos que tornam a experiência ainda mais datada.
Para mim, é um filme que tinha a oportunidade de repensar a franquia, mas escolheu o caminho mais seguro.
E Jurassic Park já foi muito mais interessante quando resolveu fazer perguntas em vez de apenas colocar um dinossauro maior na tela.














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