Jurassic World: Domínio chegou aos cinemas com uma responsabilidade enorme. Depois de cinco filmes construindo a história dos parques, dos dinossauros geneticamente modificados e das consequências da interferência humana na natureza, a produção precisava entregar um encerramento que estivesse à altura de uma das franquias mais conhecidas do cinema. E, para aumentar ainda mais a expectativa, o filme decidiu fazer aquilo que muitos fãs esperavam há décadas: colocar novamente Alan Grant, Ellie Sattler e Ian Malcolm juntos, ao lado de Owen Grady e Claire Dearing.

A ideia, sinceramente, é excelente. Temos Chris Pratt e Bryce Dallas Howard representando a nova geração, enquanto Sam Neill, Laura Dern e Jeff Goldblum retornam aos papéis que interpretaram no clássico de 1993. É impossível não sentir aquela emoção ao ver esses personagens novamente na tela. O problema é que, depois que a nostalgia passa, fica uma pergunta bastante incômoda: o que realmente sobra de Jurassic World: Domínio?

E, infelizmente, para mim, sobra bem menos do que deveria.

A nostalgia é o melhor elemento do filme

Não quero começar essa crítica fingindo que não existem momentos que funcionam, porque existem. E alguns deles são justamente os que envolvem o elenco original. Ver Alan Grant e Ellie Sattler novamente juntos é muito especial, assim como acompanhar Ian Malcolm com aquele mesmo jeito sarcástico e imprevisível que Jeff Goldblum consegue entregar tão bem. A química entre os três continua sendo um dos maiores trunfos da franquia, e mesmo depois de tantos anos é fácil perceber por que esses personagens se tornaram tão queridos.

O problema é que Jurassic World: Domínio parece saber exatamente o quanto o público ama esses personagens e acaba utilizando a nostalgia como uma espécie de atalho emocional. O filme apresenta referências, reencontros e situações que claramente foram pensadas para despertar lembranças dos primeiros filmes. E algumas conseguem fazer isso muito bem. É impossível não sorrir quando determinados momentos remetem diretamente ao Jurassic Park original.

Mas nostalgia é complemento. Ela não pode ser a história inteira.

E é justamente isso que me incomodou. Quando tiramos os personagens clássicos da equação e paramos de pensar no fato de que estamos vendo atores que marcaram a franquia novamente juntos, percebemos que o roteiro não consegue sustentar todo o potencial dessa reunião.

A ideia de um mundo dominado por dinossauros era muito melhor do que o filme entrega

Depois dos acontecimentos de Jurassic World: Reino Ameaçado, os dinossauros finalmente estão espalhados pelo mundo. Essa deveria ser uma das ideias mais interessantes de toda a franquia. Afinal, durante décadas, os filmes nos mostraram o que acontecia quando dinossauros eram colocados em parques ou instalações controladas. Agora eles estão livres, convivendo com seres humanos, ocupando diferentes ambientes e obrigando a sociedade a encontrar uma maneira de lidar com eles.

Isso tinha potencial para render um filme fantástico.

Eu queria ver mais desse mundo. Queria entender como as pessoas estavam vivendo com dinossauros soltos, como os governos estavam reagindo, quais eram as consequências ambientais e como a humanidade estava tentando se adaptar a uma realidade completamente diferente.

O filme até mostra alguns desses elementos, mas parece interessado em tantas outras coisas que essa premissa acaba ficando em segundo plano.

Em vez de realmente explorar as consequências de um planeta onde dinossauros voltaram a existir livremente, a história acaba envolvendo uma conspiração da Biosyn, o sequestro de Maisie e Beta e uma trama envolvendo gafanhotos geneticamente modificados que ameaçam as plantações.

E é aqui que a coisa começa a ficar estranha.

Estamos diante de um filme chamado Jurassic World: Domínio, com dinossauros espalhados pelo planeta, mas o grande problema mundial acaba sendo uma praga de gafanhotos.

Imagem: Divulgação / Universal Pictures Brasil

O problema é que o filme esquece o que o público queria ver

Não acho que um filme da franquia precise ser apenas dinossauro correndo atrás de pessoas. A série sempre teve discussões sobre ciência, genética, ganância corporativa e os perigos de tentar controlar a natureza. O problema é a maneira como essas ideias são utilizadas.

A trama da Biosyn até possui elementos interessantes. A empresa está envolvida com pesquisas genéticas e com a criação dos gafanhotos modificados, que destroem plantações enquanto deixam intactas as culturas produzidas com sementes da própria companhia. Existe uma crítica interessante sobre controle corporativo e manipulação genética escondida dentro dessa história.

Mas, sinceramente, quando estou assistindo a um Jurassic World, não é isso que quero que ocupe boa parte da história.

Quero os dinossauros.

Quero sentir tensão quando eles aparecem. Quero descobrir novas espécies. Quero ver como seria um mundo realmente tentando conviver com essas criaturas. Quero aquele sentimento de maravilhamento e perigo que Steven Spielberg conseguiu criar no primeiro filme.

E Domínio até entrega alguns desses momentos, mas eles ficam espalhados no meio de uma história muito mais complicada do que precisava ser.

O reencontro dos personagens clássicos é muito melhor do que a própria história

Talvez o maior exemplo de como a nostalgia funciona melhor do que o roteiro esteja justamente no trio original. Sam Neill, Laura Dern e Jeff Goldblum continuam ótimos. Existe uma familiaridade muito gostosa nesses personagens, principalmente porque eles carregam décadas de história com o público.

Ian Malcolm continua sendo provavelmente o personagem mais divertido de acompanhar. Goldblum parece entender exatamente o que precisa fazer para transformar cada aparição em um momento interessante. Grant e Ellie também trazem aquela sensação de continuidade que a nova trilogia precisava.

O problema é que eles mereciam uma história muito melhor.

Em determinados momentos, parece que o filme está apenas tentando encontrar uma desculpa para colocar os personagens clássicos dentro da mesma aventura que Owen e Claire. E quando finalmente todos estão juntos, você percebe que aquele encontro poderia ter sido muito mais especial.

A expectativa criada ao longo de anos era enorme. O resultado, porém, não chega perto de entregar tudo o que essa reunião poderia proporcionar.

Owen e Claire também acabam perdendo espaço

Chris Pratt e Bryce Dallas Howard continuam como protagonistas importantes, mas a presença do elenco clássico naturalmente muda a dinâmica do filme. Owen e Claire deveriam estar conduzindo a história, mas sempre que Grant, Ellie e Malcolm aparecem, é difícil não prestar mais atenção neles.

Isso não acontece porque os personagens novos sejam necessariamente ruins. O problema é que o trio original tem um peso emocional muito maior. E o filme não consegue equilibrar essas duas gerações da maneira que deveria.

A sensação é que estamos assistindo a dois filmes diferentes ao mesmo tempo: um sobre Owen e Claire tentando proteger Maisie e Beta, e outro sobre Grant, Ellie e Malcolm tentando descobrir o que a Biosyn está fazendo.

As duas histórias eventualmente se encontram, mas a conexão entre elas nem sempre parece natural. Essa divisão também foi apontada por críticas especializadas, que consideraram as duas linhas narrativas pouco integradas.

Quando o filme acerta, ele ainda lembra por que Jurassic Park é tão especial

E talvez essa seja a parte mais frustrante. Jurassic World: Domínio não é completamente ruim. Existem cenas muito boas.

Quando os dinossauros finalmente assumem o protagonismo, o filme consegue entregar momentos divertidos e visualmente impressionantes. A sequência em Malta, por exemplo, é uma das partes mais interessantes da aventura, misturando perseguição, ação e dinossauros de uma maneira bastante diferente do que a franquia normalmente apresenta.

Também existem momentos no terceiro ato que abraçam mais diretamente o espírito de aventura dos filmes antigos.

O filme é longo e isso pesa

Outro problema que senti é a duração. A versão de cinema tem mais de duas horas e meia, e a quantidade de histórias, personagens, explicações e desvios faz com que o filme pareça ainda maior.

Não é simplesmente uma questão de duração. Existem filmes longos que passam voando porque a narrativa mantém o espectador completamente envolvido.

Aqui, alguns trechos parecem se arrastar.

A história apresenta muitas ideias, passa por diferentes locais, introduz personagens, volta para outras tramas e precisa eventualmente juntar tudo novamente.

Isso acaba prejudicando o ritmo. Uma aventura mais simples e focada provavelmente teria funcionado muito melhor.

Jurassic World: Domínio é um filme que queria ser maior do que precisava

No fim das contas, acho que esse é o maior problema. Jurassic World: Domínio tenta ser uma conclusão épica, uma continuação da nova trilogia, uma homenagem ao Jurassic Park original, uma história sobre genética, uma aventura global e ainda um filme sobre a convivência entre humanos e dinossauros.

É coisa demais.

E quando um filme tenta fazer tudo, existe o risco de não fazer nada realmente bem. Para mim, foi exatamente o que aconteceu.

A nostalgia funciona. O elenco clássico funciona. Alguns dinossauros são excelentes. Existem boas cenas de ação e momentos que certamente vão fazer o fã sorrir, mas a história não consegue sustentar tudo isso.

Pontos positivos

O maior ponto positivo é, sem dúvida, o reencontro de Alan Grant, Ellie Sattler e Ian Malcolm com Owen, Claire e os demais personagens da nova trilogia. Ver Sam Neill, Laura Dern e Jeff Goldblum novamente nesses papéis é especial e representa um dos momentos mais nostálgicos de toda a franquia.

Também existem boas sequências de ação, dinossauros visualmente impressionantes e algumas referências aos filmes clássicos que funcionam muito bem. O filme sabe exatamente como provocar o fã que cresceu com Jurassic Park.

Pontos negativos

O grande problema é o roteiro excessivamente carregado, que tenta trabalhar muitas histórias ao mesmo tempo e acaba deixando os dinossauros em segundo plano.

A trama dos gafanhotos geneticamente modificados também é uma escolha que pode frustrar quem esperava que o conceito de dinossauros espalhados pelo mundo fosse o verdadeiro centro da história. A crítica especializada também destacou esse afastamento da principal premissa da franquia.

Além disso, a longa duração e algumas linhas narrativas pouco conectadas fazem com que o filme perca ritmo.

Jurassic World: Domínio vale a pena?

Como fã da franquia, eu não consigo dizer que Jurassic World: Domínio seja um desastre completo. Existem momentos que gostei bastante e, principalmente, existe uma nostalgia muito forte em rever os personagens que fizeram parte da minha relação com Jurassic Park.

Ver Sam Neill, Laura Dern e Jeff Goldblum novamente juntos é muito legal. Algumas referências aos filmes clássicos funcionam, determinadas cenas com os dinossauros são ótimas e existe aquela sensação de estar vendo uma parte importante da história da franquia sendo encerrada.

Mas isso não é suficiente.

O filme não se sustenta apenas pela nostalgia.

Eu queria muito ter gostado mais de Jurassic World: Domínio, principalmente porque a ideia de juntar as duas gerações era excelente. Porém, a história é confusa, longa e tenta fazer coisas demais ao mesmo tempo. O conceito de dinossauros vivendo livremente pelo planeta tinha potencial para ser o verdadeiro coração do filme, mas acaba dividindo espaço com uma trama corporativa envolvendo genética e gafanhotos que, para mim, não consegue carregar o peso de um encerramento dessa importância.

No fim, Jurassic World: Domínio entrega aquilo que o fã mais nostálgico provavelmente estava esperando: os personagens clássicos de volta, referências aos filmes antigos e alguns momentos marcantes.

Mas eu esperava mais.

A sensação que fica é de uma oportunidade perdida. O filme tinha os personagens certos, os dinossauros certos e uma premissa que poderia ter produzido um dos melhores capítulos da franquia. A nostalgia me fez sorrir, mas a história me fez sair decepcionado.