A nona temporada de Rick and Morty consegue algo que nem sempre é fácil para uma série que já passou por tantos anos de história, voltar a parecer extremamente criativa.

Depois de uma oitava temporada que dividiu mais opiniões, a nova fase mostra uma confiança enorme para experimentar novas ideias sem abandonar completamente aquilo que fez a animação se tornar um fenômeno. E eu simplesmente amei essa temporada.

Não é apenas porque ela volta a entregar episódios engraçados. É porque existe novamente aquela sensação de que qualquer coisa pode acontecer quando Rick e Morty entram em uma aventura.

Rick and Morty voltou a ser imprevisível

Talvez o maior elogio que eu possa fazer à nona temporada seja justamente esse, eu nunca tive certeza de onde um episódio iria chegar. Depois de nove temporadas, seria muito fácil para a série cair em uma fórmula repetitiva.

Rick cria um problema, Morty se mete em confusão, os dois viajam para alguma dimensão absurda, fazem piadas sobre cultura pop e, no final, tudo termina em algum tipo de caos. Mas a nona temporada consegue brincar com essa fórmula.

Os episódios continuam tendo a identidade clássica de Rick and Morty, mas existe uma vontade evidente de experimentar estruturas, conceitos e relações diferentes.

A criatividade continua sendo o maior trunfo

Quando Rick and Morty está no seu melhor, a série consegue pegar uma ideia completamente absurda e transformá-la em uma história inteligente.

A nona temporada faz isso diversas vezes.

Existem episódios que começam com uma premissa aparentemente simples e vão aumentando a escala até chegarem a situações completamente insanas. E o mais interessante é que a série não precisa necessariamente apostar no multiverso o tempo inteiro para funcionar.

Ela consegue encontrar humor em personagens, relacionamentos, situações familiares e até em conceitos que parecem completamente banais. Essa variedade faz com que a temporada seja muito mais divertida de acompanhar.

Rick continua sendo um personagem fascinante

Rick Sanchez continua sendo um dos grandes motivos para assistir à série. O personagem ainda é extremamente inteligente, arrogante, egoísta e autodestrutivo, mas a nona temporada continua explorando o lado mais melancólico do cientista.

Existe uma escuridão constante por trás das piadas. E isso funciona porque Rick and Morty nunca trata Rick simplesmente como um gênio invencível. Por trás de toda aquela inteligência existe alguém profundamente quebrado.

Morty também ganha espaço

Se existe uma evolução interessante na nona temporada, é a maneira como Morty continua deixando de ser apenas o adolescente assustado que acompanha o avô. O personagem está crescendo.

E crescer dentro do universo de Rick and Morty significa inevitavelmente começar a carregar parte da bagagem moral e emocional de Rick. A série aproveita isso para criar situações nas quais Morty precisa tomar decisões cada vez mais complicadas.

E isso torna o relacionamento entre os dois ainda mais interessante. Sem entrar em spoilers, o encerramento da temporada leva essa evolução para um caminho particularmente sombrio, explorando até onde Morty está disposto a ir quando precisa desesperadamente voltar para casa.

A família Smith continua funcionando muito bem

Outro acerto é o espaço dado para personagens que durante muito tempo ficaram atrás da dupla principal. Beth, Jerry e Summer continuam importantes, e quando a série decide colocá-los no centro da história, surgem alguns dos momentos mais divertidos da temporada.

Um ótimo exemplo é o episódio “Salute Your Morts”, que coloca Beth em destaque e recebeu uma avaliação de 8/10 da IGN, que destacou justamente o potencial cômico da dinâmica entre Beth e Jerry. Isso mostra que Rick and Morty não precisa depender exclusivamente de Rick e Morty para funcionar.

Nem todo episódio acerta

Embora eu tenha amado a temporada como um todo, nem todos os episódios possuem o mesmo nível de qualidade. Isso é algo que aparece também na crítica especializada.

O exemplo mais claro é “Jer Bud”.

O episódio recebeu apenas 5/10 da IGN, que o classificou como o capítulo mais fraco da temporada e considerou que o retorno de Snowball não funcionou tão bem quanto poderia.

Rick and Morty sempre foi uma série irregular nesse sentido. Algumas ideias funcionam absurdamente bem, enquanto outras parecem boas no papel e não chegam ao mesmo resultado na execução.

A série sabe quando ser engraçada e quando ser pesada

Uma das coisas que mais gostei na nona temporada é o equilíbrio entre humor e drama. Você pode estar rindo de uma situação completamente absurda e, poucos minutos depois, perceber que existe uma discussão sobre solidão, família, trauma ou consequências das escolhas dos personagens.

Essa mistura continua sendo uma das características que fazem Rick and Morty ser diferente de outras animações adultas. A série pode ser extremamente idiota em um momento e surpreendentemente profunda no seguinte.

E quando consegue equilibrar essas duas coisas, funciona muito bem.

A animação continua excelente

Visualmente, a nona temporada também entrega. A animação consegue acompanhar a loucura dos roteiros e não economiza nas situações que exigem cenas de ação, viagens interdimensionais e conceitos visualmente absurdos.

É uma combinação que continua funcionando muito bem: ideias absurdas + animação capaz de transformar essas ideias em imagens ainda mais absurdas.

Pontos positivos

A nona temporada recupera uma parte importante da identidade que fez Rick and Morty conquistar tantos fãs.

A criatividade está novamente em alta, os episódios apresentam ideias diferentes, o humor continua afiado e a série demonstra disposição para experimentar.

O desenvolvimento de Rick e Morty também merece destaque, principalmente pela maneira como a animação trabalha as consequências emocionais das aventuras.

Beth, Jerry e Summer ganham momentos interessantes, a animação continua excelente e alguns episódios conseguem combinar humor, ficção científica e drama de maneira brilhante.

Mais importante: a temporada volta a entregar aquela sensação de imprevisibilidade que fez a série ser tão especial.

Pontos negativos

O principal problema é a irregularidade.

Apesar de a temporada ser muito boa no conjunto, alguns episódios ficam abaixo do nível dos melhores capítulos. Nem todas as experiências narrativas funcionam da mesma maneira e algumas ideias parecem melhores do que sua execução.

“Jer Bud” é o exemplo mais evidente, recebendo uma avaliação bastante inferior à média da temporada.

Também existe uma certa sensação de que a série ainda está tentando descobrir qual é o melhor caminho para equilibrar suas histórias episódicas com a mitologia e o desenvolvimento contínuo dos personagens.

Mas são problemas pontuais.

O final deixa um gosto amargo

Sem entregar spoilers, o episódio final é uma das melhores demonstrações de como Rick and Morty consegue transformar uma situação absurda em algo genuinamente desconfortável. A temporada termina explorando consequências emocionais e morais que não são exatamente fáceis de digerir.

A série não precisa terminar sempre com uma grande piada ou com tudo resolvido. Às vezes, deixar o espectador desconfortável é justamente a melhor escolha.

O final foi descrito como particularmente sombrio, e a própria produção defendeu essa abordagem como parte da essência da série e da evolução de Morty.

Vale a pena assistir à 9ª temporada de Rick and Morty?

Eu amei a nona temporada. Ela não é perfeita e possui alguns episódios abaixo da média, mas, olhando para a temporada como um todo, Rick and Morty parece novamente uma série que ainda tem muita coisa para contar.

Depois de uma fase mais irregular, a nona temporada mostra criatividade, coragem para experimentar e, principalmente, vontade de continuar evoluindo.

Para mim, o mais importante é que Rick and Morty voltou a me fazer pensar “eu nunca teria imaginado que eles fariam isso”. E depois de nove temporadas, conseguir provocar essa sensação novamente é uma baita conquista.