Nem todo filme de sucesso precisa ganhar uma continuação. Às vezes, uma história termina no momento certo, deixa sua marca e merece continuar sendo lembrada pelo que representou. O Diabo Veste Prada, lançado em 2006, é um desses casos. O problema é que Hollywood parece ter cada vez mais dificuldade em aceitar que algumas histórias simplesmente não precisam voltar às telas.
Em O Diabo Veste Prada 2, a sensação é justamente essa: estamos diante de uma continuação que não encontra uma razão convincente para existir. Em vez de apresentar uma história que justifique o reencontro com personagens tão marcantes, o filme se apoia na nostalgia, nas aparições conhecidas e em referências ao longa original. Só que reconhecer personagens e lembrar de cenas famosas não é suficiente para construir um bom filme.
O resultado é uma experiência que, para mim, poderia tranquilamente ser resumida a um comercial de marcas de luxo ou a um vídeo promocional para as redes sociais. Temos roupas bonitas, cenários elegantes e rostos conhecidos, mas falta aquilo que deveria sustentar tudo isso: uma história interessante.
O problema de transformar nostalgia em roteiro
O primeiro O Diabo Veste Prada conquistou seu espaço porque ia muito além das roupas e do universo da moda. A relação entre Andy Sachs e Miranda Priestly apresentava conflitos profissionais, ambição, escolhas pessoais e os sacrifícios necessários para tentar crescer em um ambiente de trabalho exigente e, muitas vezes, tóxico.
Miranda, interpretada por Meryl Streep, tornou-se uma personagem icônica justamente por sua personalidade, suas atitudes e pela maneira como dominava cada cena. Anne Hathaway também ajudou a construir uma protagonista com a qual o público conseguia se identificar, acompanhando suas transformações e questionando até onde valia a pena ir em busca de sucesso.
Uma continuação precisava encontrar uma nova perspectiva para esses personagens. Não bastava reuni-los novamente e esperar que a memória afetiva do público fizesse todo o trabalho.
É justamente aí que o filme perde força. A nostalgia parece funcionar como muleta, tentando convencer o espectador de que rever rostos conhecidos já é motivo suficiente para justificar mais uma produção. Só que o tempo passou, o mundo mudou e uma continuação precisava ter algo novo a dizer.
Fanservice que não consegue salvar o filme
O filme parece saber exatamente o que o público quer reconhecer, mas confunde reconhecimento com entretenimento. Referências ao original, reencontros e situações que tentam despertar aquela sensação de familiaridade aparecem como se fossem grandes acontecimentos, quando deveriam ser apenas elementos de uma história maior.
Fanservice não é necessariamente um problema. Quando bem utilizado, pode emocionar, recompensar quem acompanha uma franquia e dar um novo significado a momentos antigos. A questão é que essas referências precisam fazer sentido dentro da narrativa.
Aqui, a impressão é de que o filme espera que o público fique satisfeito simplesmente por estar novamente na companhia de personagens que já ama. É como se cada referência dissesse: “Lembra disso? Gostou da primeira vez? Então olha de novo!”.
Mas eu não queria apenas rever o que funcionou há vinte anos. Queria uma história que justificasse esse retorno, com conflitos relevantes e personagens que tivessem algo novo a oferecer.
Quando o fanservice não vem acompanhado de boas ideias, a nostalgia deixa de ser um recurso emocional e vira apenas uma estratégia para vender ingressos.
Um filme que parece um comercial de luxo
Visualmente, O Diabo Veste Prada 2 tem todos os ingredientes para vender a imagem de um universo sofisticado. Moda, figurinos, ambientes elegantes e marcas fazem parte da identidade da franquia. Isso nunca foi um problema, porque o primeiro filme utilizava esse cenário para contar uma história sobre poder, trabalho, ambição e identidade.
O problema é quando a embalagem parece mais importante do que o conteúdo.
Em vários momentos, a experiência passa a sensação de que estamos assistindo a uma campanha publicitária estendida. Tudo parece pensado para render imagens bonitas, cenas compartilháveis e momentos que poderiam circular facilmente nas redes sociais. É o tipo de material que funciona muito bem em um vídeo curto, com uma música estilosa e uma edição caprichada.
Só que cinema precisa entregar mais do que isso.
Se eu quisesse ver roupas luxuosas, cenários bonitos e personagens famosos desfilando diante da câmera, um vídeo promocional de poucos minutos seria suficiente. Um longa-metragem precisa construir uma narrativa capaz de prender a atenção e justificar sua duração.
E é exatamente isso que senti falta: uma história que me fizesse esquecer, por alguns instantes, que estava assistindo a uma produção que parece tão preocupada em mostrar sua própria imagem.
Miranda Priestly merecia mais do que isso
É impossível falar da franquia sem destacar Meryl Streep. Miranda Priestly é uma das personagens mais marcantes do cinema dos anos 2000, e sua presença ajudou a transformar o primeiro filme em uma referência cultural que atravessou gerações.
Mas até personagens icônicos precisam de bons roteiros. Não adianta trazer uma atriz talentosa de volta e acreditar que sua presença, por si só, será suficiente para sustentar a produção.
O mesmo vale para Anne Hathaway e para todo o universo construído no longa original. O público não se apaixonou por esses personagens apenas porque eles estavam em um ambiente de luxo. Havia conflitos, diálogos, tensões e escolhas que tornavam aquela história interessante.
Uma continuação deveria compreender o que fez o primeiro filme funcionar e, a partir disso, encontrar um novo caminho. Repetir a fórmula sem apresentar uma evolução significativa é transformar personagens queridos em peças de uma máquina de nostalgia.
O Diabo Veste Prada 2 vale a pena?
O Diabo Veste Prada 2 é um exemplo de como a nostalgia pode ser usada para tentar justificar uma continuação que não precisava existir. O filme se apoia em personagens conhecidos, referências ao passado e uma apresentação visual elegante, mas nada disso substitui a necessidade de contar uma boa história.
O que poderia ser um retorno interessante acaba parecendo um grande material promocional esticado até virar longa-metragem. Em vez de sair com a sensação de ter acompanhado uma nova aventura marcante, fico com a impressão de que assisti a algo que funcionaria melhor como um comercial de luxo ou um vídeo de rede social.
O primeiro filme continua sendo uma obra marcante, e talvez esse seja o maior problema da sequência: ela faz você perceber o quanto uma boa história faz falta quando tudo o que resta é tentar reproduzir a sensação que ela provocou no passado.
Nem todo sucesso precisa virar franquia. Algumas histórias merecem terminar enquanto ainda têm algo a dizer.
Nota: 3/10.













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