Supergirl tinha tudo para ser um dos filmes mais interessantes do novo universo da DC. A produção dirigida por Craig Gillespie parte de uma história em quadrinhos bastante elogiada, Supergirl: A Mulher do Amanhã, escrita por Tom King e ilustrada pela brasileira Bilquis Evely, e coloca Milly Alcock no papel de Kara Zor-El.
A premissa também não poderia ser mais interessante. Depois de testemunhar a destruição de Krypton aos 14 anos, Kara cresceu carregando um trauma que a diferencia bastante da imagem tradicional da Supergirl. Na aventura, ela conhece Ruthye, uma jovem alienígena interpretada por Eve Ridley, que busca vingança contra o mercenário Krem, responsável pela morte de seu pai.
É uma história que poderia render uma aventura espacial diferente, mais madura e emocional. Infelizmente, para mim, Supergirl acaba sendo muito menos interessante do que o potencial dessa premissa indicava.
O filme parece constantemente dividido entre aquilo que poderia ser uma história sobre trauma, vingança e amadurecimento e a necessidade de entregar uma aventura de super-heróis cheia de piadas, personagens excêntricos e situações absurdas. O resultado é uma produção que nunca consegue encontrar completamente sua própria identidade.
Uma adaptação que perdeu parte da força da HQ
A Mulher do Amanhã tinha uma característica muito particular. A história utilizava uma aventura espacial para falar sobre luto, vingança, violência e as marcas deixadas por experiências traumáticas. Kara não era simplesmente uma heroína poderosa viajando pelo espaço. Ela era uma personagem tentando lidar com tudo aquilo que perdeu.
O filme mantém alguns desses elementos, mas parece muito mais interessado em transformar a história em uma grande aventura espacial divertida.
E é aí que começa uma das minhas maiores frustrações.
A sensação é de que Supergirl olha para o que James Gunn fez com Guardiões da Galáxia e tenta reproduzir aquela fórmula: personagens diferentes reunidos em uma aventura espacial, humor constante, criaturas estranhas, situações absurdas e momentos emocionais interrompidos por alguma piada.
O problema é que essa fórmula já não parece tão espontânea.
Em Guardiões da Galáxia, aquele equilíbrio fazia parte da identidade da franquia e dos próprios personagens. Em Supergirl, em vários momentos, parece simplesmente uma estrutura colocada sobre uma história que pedia outra abordagem.
O resultado é que o filme perde parte da personalidade que poderia ter.
Milly Alcock merecia uma história melhor
Uma das coisas que mais funcionam no filme é justamente Milly Alcock.
A atriz consegue construir uma Kara diferente da imagem mais tradicional da personagem. Existe nela uma mistura de irritação, tristeza, impulsividade e cansaço que combina com uma personagem que passou por uma experiência tão traumática.
Essa Supergirl parece estar carregando muito mais peso emocional do que simplesmente a responsabilidade de ser uma heroína.
O problema é que o roteiro nem sempre sabe aproveitar isso.
Em vez de aprofundar a relação de Kara com Ruthye e explorar as consequências de tudo aquilo que aconteceu com ela, o filme frequentemente interrompe esse desenvolvimento para voltar à aventura, às piadas ou aos personagens secundários.
Existe uma boa personagem no centro de Supergirl, mas ela parece estar disputando espaço com o próprio filme.
Ruthye deveria ser o coração da história
A relação entre Kara e Ruthye poderia ser uma das grandes forças da produção.
As duas possuem experiências completamente diferentes, mas são unidas pela perda e pelo desejo de vingança. Ruthye está determinada a matar Krem, enquanto Kara precisa lidar com a responsabilidade de acompanhar aquela jovem e, ao mesmo tempo, confrontar seus próprios sentimentos.
Essa dinâmica tinha potencial para criar uma relação muito mais profunda.
Só que o filme frequentemente parece mais preocupado em chegar ao próximo planeta, próximo combate ou próxima piada.
A história de Ruthye acaba funcionando, mas não provoca o impacto que poderia.
E isso é especialmente frustrante para quem conhece a HQ e sabe o quanto essa relação poderia sustentar o filme.
O Lobo é uma das maiores distrações
Jason Momoa é uma escolha bastante óbvia para interpretar o personagem. Existe uma combinação física e de personalidade que faz sentido, e a presença do ator poderia resultar em uma participação muito divertida.
Mas a forma como o Lobo é utilizado no filme não me agradou.
O personagem parece mais uma distração do que uma peça realmente necessária para a história. Ele entra em uma narrativa que já possui Kara, Ruthye, Krem e toda a jornada de vingança e acaba ocupando um espaço que poderia ter sido utilizado para desenvolver melhor os personagens que realmente importavam.
A participação chega a ser ridícula em alguns momentos justamente porque parece existir mais para apresentar o personagem ao público do que para contribuir organicamente com a história.
É como se o filme estivesse dizendo que precisava colocar o Lobo ali porque ele é o Lobo.
E isso, por si só, não é suficiente.
Quando personagens poderosos precisam ser “nerfados”
Outra questão que me incomoda bastante em Supergirl é algo que já se tornou recorrente em histórias de super-heróis: a necessidade de diminuir personagens extremamente poderosos para que o roteiro consiga criar um conflito.
Kara é uma kryptoniana.
Ela é extremamente poderosa e, em condições normais, diversos dos problemas apresentados no filme poderiam ser resolvidos de maneira muito mais rápida.
Isso obviamente cria um desafio para qualquer roteirista. É preciso encontrar obstáculos que façam sentido e que não transformem a personagem em alguém invencível que resolve tudo em poucos segundos.
O problema é quando a solução é simplesmente fazer o personagem parecer menos poderoso quando o roteiro precisa.
Essa estratégia pode funcionar pontualmente, mas quando fica muito evidente, tira parte da graça de acompanhar alguém tão poderoso.
É quase como se o filme precisasse esquecer, por alguns minutos, quem é a Supergirl para que determinada situação pudesse acontecer.
E esse tipo de recurso acaba deixando algumas cenas artificiais.

O problema não é mudar a personagem
Não acho que uma adaptação precise seguir uma HQ página por página.
Muito pelo contrário.
Cinema e quadrinhos são linguagens diferentes, e mudanças são necessárias para que uma história funcione na tela.
O problema de Supergirl não está simplesmente nas alterações feitas em relação a A Mulher do Amanhã. O problema está em algumas escolhas que parecem afastar o filme justamente daquilo que tornava a história original tão especial.
A HQ tinha uma identidade muito forte.
O filme parece procurar essa identidade em referências externas.
A influência de Guardiões da Galáxia é bastante perceptível na estrutura da aventura, no humor e no modo como os personagens interagem. Só que, em vez de parecer uma característica natural daquele universo, muitas dessas escolhas acabam soando como uma fórmula.
E isso é uma pena porque o universo de Supergirl poderia ter encontrado uma personalidade própria.
Uma aventura espacial que não consegue se decidir
Visualmente, o filme tem momentos interessantes e existe uma escala maior de aventura. A ideia de acompanhar Kara e Ruthye viajando por diferentes mundos também funciona como conceito.
Mas a mistura de tons nem sempre dá certo.
Em determinado momento estamos diante de uma história sobre uma garota que perdeu o pai e quer vingança. Pouco depois, o filme está fazendo uma piada ou colocando algum personagem excêntrico em cena. Depois voltamos para o drama de Kara e, novamente, alguma situação tenta aliviar o peso emocional.
Esse vai e volta acontece tantas vezes que a história perde impacto.
Quando chega um momento que deveria ser emocionalmente importante, já estamos preparados para a próxima piada.
E isso impede que algumas cenas tenham a força que poderiam ter.
O filme tinha material para ser muito mais
Talvez o maior problema de Supergirl seja justamente o potencial desperdiçado.
Temos uma personagem extremamente conhecida, uma atriz que funciona muito bem como Kara, uma HQ de referência, uma história envolvendo vingança e trauma e um universo inteiro de ficção científica para explorar.
Era possível construir algo realmente diferente dentro do gênero.
Em vez disso, o filme acaba recorrendo a caminhos bastante conhecidos.
A aventura espacial vira uma sucessão de mundos e personagens estranhos. O humor aparece quase como uma obrigação. O Lobo entra para ampliar o espetáculo. Personagens poderosos são limitados para criar conflitos. E a história emocional que poderia ser o centro acaba dividindo espaço com tudo isso.
Não é que Supergirl não tenha boas ideias.
É que poucas delas recebem espaço suficiente para realmente funcionar.
Supergirl precisava ser mais Supergirl
O que mais me incomodou foi sair do filme com a sensação de que eu queria ter gostado muito mais dele.
Eu queria ver uma grande história da Supergirl.
Queria acompanhar melhor o trauma de Kara, entender mais profundamente a relação dela com Ruthye e ver essa jornada de vingança realmente transformar as duas personagens.
Queria que o filme tivesse coragem de confiar mais nessa história e menos na necessidade de colocar uma piada a cada poucos minutos.
Também queria que o Lobo fosse utilizado de maneira mais interessante, em vez de parecer uma participação criada simplesmente para apresentar o personagem.
No fim, Supergirl acaba sendo uma aventura espacial competente em alguns momentos, mas muito distante do filme que poderia ter sido.
Milly Alcock entrega uma Supergirl com potencial, mas o roteiro não aproveita tudo o que ela poderia oferecer. A história da HQ tinha material para uma adaptação emocionalmente muito mais forte, mas o filme acaba preso a clichês e a uma fórmula que já vimos em outras produções.
E quando uma personagem tão poderosa precisa ser constantemente limitada para que a história aconteça, fica difícil não perceber que talvez o problema não esteja na personagem.
Está na história que foi construída ao redor dela.
Supergirl tinha tudo para ser uma aventura marcante do novo DCU. Para mim, acabou sendo uma oportunidade perdida de fazer algo realmente diferente.














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