Crítica The Boroughs: quando os Irmãos Duffer estão envolvidos em uma série, é difícil não criar expectativa. Afinal, estamos falando dos criadores de Stranger Things. Mas The Boroughs consegue fazer algo importante: encontrar sua própria identidade enquanto brinca com elementos que lembram o universo que consagrou os irmãos.
E eu gostei muito disso.
A série da Netflix mistura ficção científica, sobrenatural, mistério, humor e drama em uma comunidade de aposentados no deserto do Novo México. A premissa parece simples: um grupo de moradores aparentemente comuns precisa descobrir o que existe por trás daquele lugar perfeito e enfrentar uma ameaça sobrenatural que pode roubar justamente aquilo que eles têm cada vez menos: tempo.
Só que The Boroughs acaba sendo muito mais interessante quando deixa de ser apenas uma história sobre monstros e passa a falar sobre amizade, perda, envelhecimento, recomeços e a importância de encontrar pessoas que façam a vida valer a pena.
E é aí que a série me ganhou.
Um elenco que é simplesmente incrível
Se existe uma palavra para definir o elenco de The Boroughs, é absurdo.
Alfred Molina interpreta Sam Cooper, um viúvo que chega à comunidade sem nenhuma vontade de estar ali e que acaba se envolvendo cada vez mais com os mistérios do lugar. Molina consegue fazer de Sam um personagem rabugento, engraçado e emocionalmente vulnerável sem transformar tudo em caricatura.
Alfre Woodard também está excelente como Judy, uma ex-jornalista extremamente curiosa e observadora. Judy rapidamente se transforma em uma das personagens mais importantes para a investigação do grupo, e Woodard dá a ela uma presença que faz cada cena funcionar.
Clarke Peters interpreta Art, um personagem espiritualizado e muito mais aberto ao inexplicável. É uma atuação que vai ganhando força conforme a história avança.
Já Denis O’Hare, como Wally, traz boa parte do humor da série. Wally é aquele personagem que consegue deixar as situações mais leves sem parecer completamente deslocado quando a história fica mais pesada.
E ele tem uma química excelente com Geena Davis, que interpreta Renee, uma ex-empresária da música com personalidade forte, atitude e uma história de vida que vai se revelando aos poucos.
A relação entre os dois é uma das coisas que mais gostei na temporada.
O mais interessante é que a idade dos protagonistas não é tratada como uma piada. Pelo contrário. A série transforma justamente a experiência de vida desses personagens em uma das suas maiores forças.
The Boroughs encontra seus heróis onde ninguém procuraria
Uma das coisas que mais gostei é que a série não tenta transformar seus protagonistas em versões mais velhas dos adolescentes de Stranger Things.
Eles têm outra dinâmica.
São pessoas que já viveram muita coisa, carregam perdas, arrependimentos, histórias e experiências. Sam, por exemplo, chega à comunidade depois de perder a esposa e inicialmente parece simplesmente querer ficar longe de todo mundo.
Só que, aos poucos, aquele grupo improvável começa a se transformar em uma família.
E acho que esse é o coração de The Boroughs.
Por trás dos monstros e dos mistérios, existe uma história sobre pessoas que acreditavam que suas grandes aventuras já tinham ficado para trás e descobrem que ainda existe muita coisa pela frente.
A própria equipe criativa descreveu a série como uma história sobre pertencimento e sobre continuar crescendo independentemente da idade. E isso aparece bastante na temporada.
O mistério funciona e poderia crescer muito mais
A parte sobrenatural também me conquistou.
The Boroughs começa devagar, apresentando a comunidade, os moradores e os pequenos estranhamentos daquele lugar. Aos poucos, porém, percebemos que existe alguma coisa muito maior acontecendo.
A série sabe esconder informações suficientes para criar curiosidade sem transformar tudo em uma sucessão de mistérios artificiais.
E justamente quando começamos a entender melhor aquele universo, percebemos o potencial que ele tinha para crescer.
Esse é um dos pontos que mais me incomodaram depois de terminar a temporada.
Não porque o que foi apresentado seja ruim. Pelo contrário.
Eu queria mais.
Queria conhecer melhor aquele mundo, entender mais sobre determinadas ameaças, acompanhar o desenvolvimento dos personagens e descobrir para onde algumas das situações apresentadas poderiam levar.
Os criadores chegaram a planejar uma história para múltiplas temporadas, e o final da primeira temporada deixa espaço para novas aventuras.

A série tem coração
Talvez seja isso que diferencie The Boroughs de uma simples série de ficção científica.
Ela tem coração.
A ameaça sobrenatural é importante, os mistérios funcionam e existe bastante coisa para descobrir, mas a série nunca esquece que estamos acompanhando pessoas.
Sam está lidando com o luto. Judy tem sua curiosidade e seus próprios conflitos. Art está tentando compreender coisas que vão muito além do que conseguimos explicar. Renee carrega uma vida cheia de histórias.
São personagens que poderiam facilmente ser tratados apenas como “idosos em uma aventura sobrenatural”.
Mas não são.
Eles têm personalidade, desejos, medos e relações próprias.
E o elenco entende isso perfeitamente.
É impossível não lembrar de Stranger Things
Sim, existem momentos em que The Boroughs lembra Stranger Things.
É inevitável.
Tem uma pequena comunidade, um grupo de pessoas tentando descobrir um segredo sobrenatural, criaturas estranhas, mistério e aquela sensação de que existe alguma coisa muito errada escondida debaixo da aparência normal.
Mas a série encontra uma maneira interessante de mudar a perspectiva.
Em vez de crianças e adolescentes andando de bicicleta, temos aposentados andando de carrinho de golfe.
E isso muda completamente a dinâmica.
Os próprios Duffer Brothers já falaram sobre essa diferença, destacando que o espírito de aventura, mistério, humor, medo e emoção continua presente, mas agora visto através de personagens mais velhos.
Para mim, essa foi uma das melhores escolhas da produção.
A trilha sonora ajuda demais
Outro detalhe que gostei bastante foi a trilha sonora.
A série utiliza músicas conhecidas para construir momentos específicos e, em alguns casos, as escolhas musicais ajudam a definir a personalidade dos personagens.
Logo no começo, por exemplo, Sam chega ao Boroughs ao som de “Golden Years”, de David Bowie. É uma escolha que conversa diretamente com o tema da série e com a fase de vida do protagonista.
São detalhes que ajudam The Boroughs a construir uma identidade própria.
O problema é que acabou
E aqui chegamos à parte que mais dói.
The Boroughs foi cancelada pela Netflix depois de apenas uma temporada.
A série estreou em maio de 2026 e teve oito episódios, mas a Netflix decidiu não seguir adiante com uma segunda temporada. Havia, inclusive, uma sala de roteiristas trabalhando em uma possível continuação e planos discutidos para desenvolver mais de uma temporada.
E é uma pena.
Porque The Boroughs termina uma parte importante da sua história, mas deixa claro que aquele universo poderia crescer.
Existem personagens que poderiam ganhar muito mais espaço. Existem relações que poderiam ser aprofundadas. Existem elementos sobrenaturais que poderiam ser explorados de maneira muito mais ambiciosa.
É aquele tipo de cancelamento que faz você pensar: “mas eu queria saber o que aconteceria depois!”
Mesmo cancelada, vale a pena assistir?
Sim. Muito.
Eu sei que muita gente evita começar séries canceladas justamente por medo de ficar sem final. E, nesse caso, existe uma boa notícia: a primeira temporada consegue entregar uma conclusão emocional para a história principal.
Ao mesmo tempo, ela deixa uma porta aberta para o futuro.
Ou seja, você vai terminar querendo uma segunda temporada? Provavelmente.
Eu terminei querendo.
Mas isso não transforma os oito episódios em uma experiência incompleta. A jornada dos personagens funciona e existe uma resolução para boa parte do conflito apresentado.
A Netflix disponibiliza os oito episódios da primeira temporada, com capítulos que variam aproximadamente entre 40 e 56 minutos.
The Boroughs merecia mais tempo
Eu gostei muito de The Boroughs.
Gostei do elenco, gostei da proposta, gostei da mistura de sobrenatural com drama e humor e, principalmente, gostei de acompanhar personagens que normalmente não seriam colocados no centro de uma aventura desse tamanho.
Alfred Molina está excelente. Geena Davis está ótima. Alfre Woodard entrega uma personagem extremamente interessante. Clarke Peters, Denis O’Hare e Bill Pullman completam um grupo que tem uma química deliciosa.
É uma série que consegue ser divertida, misteriosa, emocionante e estranha na medida certa.
E justamente por isso é frustrante saber que não teremos mais.
The Boroughs tinha espaço para crescer. Tinha personagens para desenvolver, mistérios para explorar e um universo que poderia ficar muito maior nas próximas temporadas.
Mas temos apenas uma.
Então, se você estava deixando The Boroughs de lado porque descobriu que ela foi cancelada, eu diria para dar uma chance mesmo assim.
Assista.
Porque, apesar de tudo, existe uma temporada muito divertida, cheia de personagens excelentes e uma história que vale a pena conhecer.
E, no final, talvez você tenha a mesma sensação que eu tive:
“Netflix, por que você fez isso com a gente?”
Quer saber por que eu recomendo The Boroughs? Confira o episódio do NãoSei Indicar no YouTube e veja a minha indicação completa.
The Boroughs
Criadores: Jeffrey Addiss e Will Matthews
Produtores executivos: Matt Duffer e Ross Duffer
Temporada: 1
Episódios: 8
Onde assistir: Netflix














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