Until Dawn, longa-metragem inspirado no icônico jogo de videogame de mesmo nome, é mais um exemplo frustrante de como nem toda obra de sucesso nos consoles consegue se traduzir com competência para as telas do cinema. O filme falha justamente onde o jogo mais se destacava: na construção da tensão, no envolvimento emocional com os personagens e na sensação de agência do espectador.

A trama segue um grupo de amigos adolescentes que decide passar um fim de semana em uma cabana isolada em Blackwood Mountain, no Canadá, exatamente um ano após o desaparecimento misterioso das irmãs gêmeas Hannah e Beth, que integravam o grupo. O que deveria ser um feriado repleto de diversão na estação de esqui rapidamente se transforma em um pesadelo, quando um serial killer começa a rondar a região e passa a perseguir os jovens, colocando a vida de todos em risco.

No papel, parece a receita perfeita para um clássico terror slasher: isolamento, adolescentes despreparados, um assassino à espreita e traumas do passado. Mas, na prática, tudo se perde em um roteiro fraco e desinteressante, sem alma e sem qualquer impacto.

O que resta em Until Dawn é um roteiro linear, sem surpresas, que desperdiça a oportunidade de explorar as nuances psicológicas e emocionais dos personagens. Em vez disso, entrega uma sucessão de clichês previsíveis do gênero slasher, com diálogos rasos, motivações mal explicadas e um desenvolvimento completamente apático.

Se no game era possível se apegar aos personagens, torcer ou até desejar que alguns não sobrevivessem, no filme eles são pouco mais que estereótipos ambulantes: o valentão, a garota popular, a mocinha indefesa… tudo soa artificial e superficial, como se o roteiro tivesse saído de um gerador automático de histórias de terror genéricas.

Nenhum personagem tem tempo ou espaço para ser desenvolvido de forma minimamente interessante. Pior ainda: o elenco parece completamente perdido, entregando atuações frias, sem emoção, como se até eles soubessem que estavam presos em um projeto sem rumo.

Outro erro imperdoável de Until Dawn é sua total incapacidade de gerar tensão ou medo. As cenas de perseguição são genéricas, previsíveis e sem impacto visual ou sonoro. A direção falha ao construir um clima de suspense, apostando em sustos fáceis e batidos, que não causam mais do que um bocejo.

O cenário, que no jogo era opressivo e ameaçador, aqui se transforma em mero pano de fundo. Blackwood Mountain, com toda sua atmosfera gélida e claustrofóbica, simplesmente não é aproveitada como elemento narrativo ou estético.

Until Dawn é, infelizmente, mais uma daquelas adaptações que parecem feitas apenas para capitalizar em cima da fama do material original, sem qualquer preocupação em respeitar o que tornou o jogo um fenômeno cult. O filme perde a chance de explorar temas como culpa, medo e sobrevivência, e entrega apenas uma narrativa rasa, esquecível e mal executada.

Se o jogo Until Dawn é lembrado como uma experiência imersiva, tensa e inovadora dentro do gênero de terror interativo, o filme é o oposto, uma produção genérica, fria e sem qualquer brilho. Para os fãs do game, é uma decepção enorme; para quem não conhece o original, apenas mais um slasher medíocre e descartável. Se for para reviver Until Dawn, que seja com o controle na mão, e não com esse filme insosso e sem alma.